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Iii congresso Internacional de Psicopatologia Fundamental e IX congresso Brasileiro de Psicopatologia Fundamental Mesa – Redonda – Eros na maturidade: violência, poder e criação. A construção erótica segundo Lou Andreas-Salomé


  III  Congresso  Internacional  de  Psicopatologia  Fundamental  e  IX  Congresso



Brasileiro de Psicopatologia Fundamental



Mesa – Redonda – Eros na maturidade: violência, poder e criação.



A construção erótica segundo Lou Andreas-Salomé. – Fani Hisgail

O  termo  erotismo  exprime  diferentes  significados  e  definições  e,  com  toda  sua

eloqüência pode ser encontrado na literatura, na arte, no cinema, na moda, na música,

no teatro, ou seja, em todas as manifestações da vida que promove Eros. Na constituição

do eu a construção do erotismo se funda na relação mãe-filho, sempre e quando o desejo

e o amor firmam-se como amante e amado do ideal de união. O texto pretende abordar o

“erotismo” segundo a definição que Lou Andreas-Salomé (1861-1937) nos oferece a

partir do seu ensaio publicado em 1910.

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A construção erótica segundo Lou Andreas-Salomé



FANI HISGAIL

Não há quem não tenha ouvido falar dela, uma das mulheres mais prestigiadas

do círculo íntimo  de Freud e amiga da família desde 1912. Ficou conhecida por ter

despertado paixões avassaladoras em homens que marcaram a época, tais como Paul

Rée,  Friedrich    Nietzsche  e  Rainer  Maria  Rilke.  Nos  últimos  anos,    Lou  Andreas-

Salomé  ressurgiu  como  Lou  Salomé  personagem  do  romance  “Quando  Nietzsche

Chorou”, de Irvin D Yalon, e os mais jovens passaram a saber, mesmo que pela ficção,

um pouco mais sobre a vida dessa senhora russa, célebre pela autoria de mais de vinte

livros de poesia e ensaios de Psicanálise.

Lojla von Salomé (1861-1937), é filha de um general do Estado Maior czarista,

originário da França, e de mãe natural de S. Petersburgo, única menina depois de seis

varões.  Foi  educada  no  protestantismo  e  aos  15  anos  conhece  o  pastor  holandês

Hendrick Gillot, que durante dois anos vive um amor platônico, de adolescente. Dessa

epistolar ligação, interessou-se por filosofia, teologia e literatura, bases para as quais

serviram para a carreira nas letras.

Por volta dos 18 anos, vai com sua mãe para a Suíça estudar teologia, mas não

suporta  o  clima  alpino  e  muda-se  para  Roma,  onde  conhece  Paul  Rée  e  Friedrich

Nietzsche, formando assim um triunvirato intelectual. Como não poderia deixar de ser,

os jovens talentosos se apaixonam por Lou, mas nada conseguem, senão a amizade e a

paixão pelos mais caros temas da humanidade. 

Percorreu a Europa, fazendo amizades com pessoas dos círculos literários e aos

26 anos casou-se com o filólogo Friederich Carl Andreas, homem bem mais velho que

tentara o suicídio, enfiando uma faca no peito, na presença de Lou pouco antes de se

casarem.  Passou  a  vida  inteira  casada  com  Andreas,  mas  era  bastante  arrojada  e

corajosa, não se privando de outras relações amorosas. Aos 36 anos, consagrada como

escritora célebre, conheceu o poeta austríaco Rainer Maria Rilke, ainda desconhecido

com  seus  22  anos.  Sem  dúvida  que  esse  encontro  fora  sonhado  por  Rainer,  pois  o

impressionara muito a poesia de LAS.  Consta que a relação amorosa mais longa foi

com o médico  vienense Dr. Pineles, onde ficavam juntos  longos períodos, enquanto

Andreas permanecia em Gottingen, como professor na cadeira de Estudos Iranianos e de

Línguas Orientais.

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   A busca pelo caráter psicológico presente na produção literária conduziu LAS

à  psicanálise, e graças ao psiquiatra suíço Poul  Bjerre, quem lhe pôs em contato com

os textos freudianos, que pode, aos 51 anos, iniciar uma longa amizade e parceria com

Sigmund Freud, que nessa época contava com 56 anos de idade. 

Na  Recordação de Freud, ensaio auto-biográfico escrito em 1936, LAS conta

que foi na ocasião do Congresso de Psicanálise em Weimar, no outono de 1912, que se

apresentou  ao  mestre  como  autodidata  depois  de  proferir  uma  conferência  sobre  “A

sublimação”.  Um  ano  depois,  LAS  encontrou-se  com  Freud  em  Viena  para  lhe

comunicar a intenção de trabalhar com ele e Alfred Adler. Nessa época, Adler havia se

tornado inimigo de Freud, e como relata LAS, ele “teve a delicadeza de aceitar, com a

condição  de  não  transparecer  nada  do  que  se  passasse  num  grupo  ou  outro.  Essa

condição foi de tal modo  respeitada, que Freud só meses depois soube que eu tinha

deixado o grupo de trabalho de Adler.” (Lou Andreas-Salomé 1991:171) 

As Correspondências Freud/Lou Andreas-Salomé, iniciam-se em 1912, ano em

que se instala em Viena para participar do círculo restrito dos discípulos de Freud. Sua

entrada  foi  saudada  por  todos,  em  especial  por  Victor  Tausk  que  apaixonou-se

perdidamente por ela. Permaneceu fiel à Freud até o final da vida com contribuições

valiosas, como O Erotismo, publicado em 1910 a pedido de Martin Buber para a revista



Die Gesellsehaft. 

O EROTISMO

 Na  opinião de  LAS  a base do erotismo  é  a sexualidade humana,  e por  esta

premissa  define  o  erotismo  começando  pela  sua  finalidade,  a  de  ligar  e  religar  as

funções “fisiológicas, psíquicas e sociais” em uma só. 

Trata-se de entender que “o erotismo se ergue num solo sempre semelhante a si

mesmo, rico e robusto – qualquer que seja a altura até onde cresça, qualquer que seja

sua imensidão, o espaço de que se apodera e a maravilhosa árvore em que se desenvolve

– para subsistir, mesmo quando o solo é totalmente invadido por edifícios, abaixo destes

em toda a sua força original, obscura e íntegra” (2005:59).

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O  erotismo  é  um  estado  humano  que  consiste  em  criar  impressões  sobre  a

manifestação  sexual,  imputando  à  experiência  uma  atividade  erótica.  A  procura

psicológica  concomitante  a  atração  sexual,  como  lembra  LAS,  independe  da

preocupação com a reprodução da espécie, e a prova disso é que o sexo se realiza sob o

“princípio  da  infidelidade”  (2005:61).    Bem  longe  do  domínio  da  fidelidade,  “a

sexualidade simples é arrastada para a sensação e finalmente para o romantismo das

sensações”, denotando a escolha do objeto erótico com o momento do amor. 

Se  julgarmos  pela  época  em  que  o  texto  foi  escrito,  dez  anos  depois  da

publicação de  Reflexões  sobre o amor,  1900,  a construção  do  pensamento  de  LAS

sobre o desejo, o amor e a sublimação, reúnem, num cabedal literário, narrativas acerca

dos  hábitos,  do  cotidiano  e  do  familiar  que  ajudam  a  erguer  obstáculos  contra  a

infidelidade, encarnada na atividade erótica. Desse modo, a visão higienista, pedagógica

e utilitarista exige a fidelidade, e certa constância na organização da vida, que mantêm o

erotismo na clandestinidade.

Como escritora e pensadora, lutou contra a subordinação das mulheres perante o

homem e contestou as convenções sociais, produtos da cultura da época. Curiosa quanto

aos  papéis  femininos  dos  dramas  realistas  do  século  XIX,  LAS  problematiza  os

conflitos da alma com as exigências da moral sexual civilizada. Suas idéias encontraram

um  lugar  privilegiado  no  campo  da  psicanálise,  e  ecos  dessa  união  a  influenciaram

como ensaísta, teórica e analista. 

Segundo Vanina Escales, jornalista e autora de um ensaio biográfico, os temas

que  ocupavam  a  produção  escrita  eram  “a  infância  como  tesouro  dos  mistérios,  o

sentido da religião, a psicologia individual, o significado da arte, a mulher na sociedade,

as uniões familiares, o amor e o erotismo” (2008:12)

Freud a admirava  pela inteligência e a capacidade de entender os seus conceitos.

As objeções e questionamentos não abalavam a confiança que ambos tinham um pelo

outro, nem mesmo os fundamentos das descobertas freudianas. Por ocasião dos seus 65

anos, escreveu Carta aberta a Freud, 1931, endereçando com desenvoltura e elegância,

um compêndio de psicanálise.

Dos preciosos comentários, destacamos aquele em que ela afirma, 

“Eu fiquei  abalada ao constatar  que  a concepção recente do senhor  da  dupla

amor e ódio, submissão e agressão, se afastava menos do que no passado da concepção

de  Adler,  pelo  menos  sobre  um  ponto:  o  componente  agressivo  não  é  mais,  para  o

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senhor, como antes, a vontade de afirmação e de expansão do si, que se interioriza  para

se tornar depois em violência exercida contra nós mesmos” (2001:54).  

Tal fato confere  a soberania da pulsão de morte, e efetua o apequenamento da

pulsão  oposta,  trazendo  profundos  sofrimentos.  Entretanto,  as  pulsões  eróticas

concorrem com “o sono da morte”(2001:58) e o que a psicanálise vai resgatar é o que

“tem sido sepultado vivo”(2001:59).



 O Mal estar na civilização, publicado em 1930, é o texto de pano de fundo da

Carta   aberta   a   Freud,  por  que  ali  ele  define  libido  equivalendo  a  Eros,  a  fim  de

distingui-la  da  pulsão  de  morte   A medida que  a felicidade de uma  satisfação  mais

primitiva é muito mais intensa do que aquela que é conhecida, Eros inclina-se ao sono

da  morte.  A  dualidade  pulsional,  originaria  da  teoria  da  libido  e  do  narcisismo  se

mantêm até surgir a tensão entre certas qualidades e propriedades das pulsões eróticas e

pulsões agressivas. 

Por fim, a pulsão de vida e a de morte evocam a noção de conflito psíquico, que

joga  com  a  determinação  da  sexualidade  e  com  o  saber  do  recalcado.  Os  afetos

instigados no campo de batalha do complexo de Édipo, instituem a sexualidade como

inimigo no conflito. Por isso, Freud as chamou inicialmente de auto-conservação, mas a

implicação maior consistiu na contundente descoberta: as pessoas se enfermam porque

se defendem da sexualidade.

Muito  antes  da  última  teoria  pulsional,  LAS  já  tinha  escrito  Anal  &  Sexual,

1918, onde afirmava que as metamorfoses de Eros, presente desde o banquete platônico,

não eram isentas de impulsos agressivos, além de serem transgressivas pela sua natureza

inconsciente. É somente pelo domínio do erótico que a conservação da vida apóia-se em

Eros, mesmo que em última instância a morte dance a música macabra da finitude e do

gozo.


BIBLIOGRAFIA

Andreas-Salomé, Lou. Carta aberta a Freud, Landy Ed., SP, 2001

_________ Reflexões sobre o amor e O erotismo, Landy Ed., SP, 2005

_________A minha vida, Edição Livros do Brasil, Lisboa, 1991

Escales,  Vanina.  Lou  Andreas-Salomé,  La  seducción  de  la  inteligencia,  Ed.  Capital

Intelectual, Buenos Aires, 2008

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Freud, Sigmund & Lou Andreas-Salomé,  Correspondencia,  Siglo Veintiuno Editores,

México, 1968



 

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